Publicado por: frentevida | 15/04/2011

Mea culpa

Quando uma relação acaba, quase sempre tendemos a culpar o parceiro por seu fracasso – e pelas condições que levaram a ele. Em um de seus textos semanais na Folha de São Paulo, o psicanalista Contardo Calligaris foi categórico: “Uma das boas razões para se casar é que, uma vez casados, podemos culpar o casal por boa parte de nossas covardias e impotências”. Para ele, a decepção consigo mesmo se torna muito menos amarga quando é transformada em acusação. “Você está me impedindo de alcançar o que eu não tenho coragem de querer”, escreveu. Isso porque um coloca na mão do outro as rédeas da própria vida, com medo de assumir o controle e fracassar. Mais ninguém (salvo exceções) se casa obrigado. Por isso, também respondemos por aquilo que conscientemente escolhemos.

E, afinal, somos livres para fazer nossas escolhas – pelo menos teoricamente.

O filósofo Renato Janine Ribeiro, aliás, questiona a relação liberdade e responsabilidade tal qual a conhecemos. Ele defende que a responsabilidade é que pressupõe a liberdade, não o contrário; temos que pressupor que somos responsáveis, para então ser livres. “Só quando sou capaz de responder pelos meus atos é que eu tenho a liberdade para fazer minhas escolhas”, afirma. Até porque nossa liberdade já é constituída de forma orientada: não escolhemos se nascemos homem ou mulher, negro ou branco, pobre ou rico. Diante da nossa realidade e da responsabilidade que ela nos impõe é que somos livres para fazer outras escolhas, tomar novas decisões.

O primeiro passo para nos tornarmos livres para definir os rumos da nossa própria vida é assumir quem somos: “Se eu negar o que eu sou, minha liberdade fica muito mais difícil. Afinal, você só consegue fazer escolhas a partir daquilo que você já é. E só é possível mudar quando assumirmos nossa condição.”

Se na infância uma criança ainda não está apta a responder por todos os seus atos, ao longo da vida é certo que vamos ganhando liberdade para nos exprimirmos e fazermos aquilo que queremos através da conquista da autonomia que nos dá o poder.

É preciso, como defendia Kant, sair desse estado de infância e passar a assumir responsabilidade para termos uma vida mais plena. Porque o preço da inocência é mesmo a impotência. Fechar-se no quarto pode eximi-lo das consequências dos seus atos. Mas ao mesmo tempo lhe tira o prazer de sair para brincar.

Trechos retirados da reportagem “Mea Culpa”, escrita por Rafael Tonon, da revista Vida Simples de março/2011.

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