O Larousse Universel (vol.2) nos diz que normal significa: conforme a regra, regular, comum.
Um grande número de pessoas faz questão de ser “regular”, ao menos aos olhos dos outros; outros tantos fazem tudo para estarem “conforme a regra”, como crianças bem-comportadas. Mas quem faria tudo para ser “comum”?
Essa pequena excursão ao dicionário evidencia a ambivalência associada à noção de normalidade: aprovação e condenação ao mesmo tempo. Se, por um lado, nos recusamos a ser “comuns”, não desejamos tampouco ser anormais.
Uma pessoa normal é aquela que precisa ou a que não precisa de uma análise?
Seria normal questionar-se, repensar idéias convencionais, examinar com desconfiança a ordem estabelecida, quer seja a que reina no interior de si, da família ou mesmo do grupo social ao qual pertencemos?
À dificuldade de ser, há sempre a possibilidade de responder através de uma superadaptação ao mundo real. Neste caso, o sujeito corre o risco de viver em circuito fechado. A força criativa e desordenada esfacela-se contra essa carapaça que põe em perigo a própria vida. Se rasparmos um pouco essa casca que envolve os “bem-demais-na-sua-pele”, o que encontraremos? (…)
Acrescente-se ainda que esse ser normal é o pilar sobre o qual repousa a estrutura social. Sem ele, a sociedade estaria ameaçada. Ele jamais derrubaria o Império, e ao mesmo tempo é capaz de morrer pela República. Seu epitáfio: “Nasceu homem e morreu mero encanador”. Mas cuidado! Por quem dobram os sinos? Para eles, para mim, para vocês? Nós também corremos o risco de morrermos meros analistas. Este destino espreita a todos. O analista que se acreditar “normal”, atribuindo-se assim o direito de preconizar normas a seus analisandos, poderá tornar-se altamente tóxico para eles.
Como dizia Freud, “ninguém conduzirá seus analisandos mais além do exercício de sua própria capacidade de questionar-se”.
Trechos retirados do livro de Joyce McDougall – Em Defesa de uma certa anormalidade.
